Cuidado com a
alma do outro mundo

 

Atenção, não deixe que substituam ou que
façam experiências com seu instrumento.





Há alguns anos recebi em meu atelier um instrumento para ser restaurado. Não era um instrumento de qualidade. Era um baixo de fábrica e muito comum hoje em dia. Logo notei que o tampo estava um pouco deformado na região da alma. Assim que as cordas foram afrouxadas a alma caiu e o tampo voltou ao normal. Isso é um indício muito claro de alma pequena para o instrumento. Quando retirei a alma de dentro do baixo para recolocá-la me deparei com essa "alma do outro mundo" que você pode ver nessas fotos.


Não dá para se ter certeza se isso foi feito de propósito para tentar reparar um erro cometido durante a manufatura da alma ou se é apenas uma experiência de curioso. Soube, pelo proprietário do instrumento que aquela alma tinha sido feita poucos dias antes.

Além de tentar aprender danificando os instrumentos dos outros inventando coisas sem testes e experimentos prévios sem prejuízo de ninguém, esse "curioso-inventor" deixou a alma muito curta, danificando a estrutura do tampo. A única coisa que não se poderia fazer era deixar o tampo empenar para se vender uma alma.


O material onde a alma entra em contato com o tampo estava impregnado de cola deixando os poros da madeira tampados e um pedaço de madeira estava enfiado no centro da alma, como isso só ocorre de um lado da alma conclui-se que esse ébano serve apenas para prejudicar a transmissão das sutis e complexas vibrações do tampo ao fundo.

O pior é saber que o músico pagou para ter a alma de seu instrumento estragada e chegou a acreditar na eficácia desse tipo de "coisa".

Eu acho que as experiências todas são válidas e é assim que nós chegamos a novos conceitos, mas penso que é ridículo tentar qualquer coisa nova usando como "cobaias" os instrumentos dos outros.






A alma é uma peça muito importante e não deve ser trocada à toa assim como o verniz ou a barra harmônica.
    Caso alguém não habilitado (alguém que não é lutier, que não teve um mestre, que resolveu de repente que era lutier) se ofereça para trocá-la leve antes seu instrumento a um lutier de verdade apenas para que ele lhe oriente sobre a necessidade ou não de se trocar essa peça.

    É obrigação do lutier orientar e falar a verdade para seus clientes ou para quem o procura em busca de orientação técnica, profissional e responsável

   Procure em sua cidade pelos melhores lutiers, saiba com quem estudaram, saiba quem usa seus instrumentos, quem são seus clientes, vá conhecer os ateliers dos profissionais, converse com eles e confie nos que estão aptos para lhe ajudar.
    Se em sua cidade não existir alguém competente leve seu instrumento a um especialista em outro local mas não caia nas mãos de curiosos.


    Um abraço e olho vivo

 

                        Paulo Gomes

 

 

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