A ética e as lendas

 

Como não ser enganado na
hora de comprar um instrumento


        Uma pessoa vai a um lutier, deixa um violino para ser restaurado e fica de retornar em uma semana.
        No dia seguinte outro cliente aparece no atelier e demonstra muito interesse pelo violino do nosso primeiro personagem. O interesse é tanto que ele se oferece para comprá-lo por US$ 5.000 e fica de retornar depois para negociar. O lutier logo pensa que US$ 5.000 por algo que vale US$ 1.000 é um excelente negócio.
        Quando o dono do instrumento retorna, o lutier, sem demonstrar muito interesse, se oferece para comprar o violino e oferece US$ 1.000 caso a resposta seja afirmativa.
        O proprietário pondera sobre o valor sentimental do instrumento, sobre sua sonoridade e até suas qualidades “extraterrenas” mas deixa claro que vende o violino por US$ 3.000.
        O lutier vê que um lucro de US$ 2.000 é bem menor do que os US$ 4.000 que imaginava inicialmente mas, ainda assim, é um lucro muito bom para uma simples venda.
        O lutier então paga os US$ 3.000 e fica aguardando o cliente que pagaria US$ 5.000.
        Acontece que esse “cliente” nunca mais retorna e o lutier ganancioso fica com o prejuízo de ter pago US$ 3.000 por algo que no máximo venderá por US$ 1.000. Os dois “clientes” agiam em conjunto e provavelmente gastaram juntos o dinheiro conseguido de maneira tão fácil.

        Essa história mostra como é possível se enganar um lutier com um golpe antigo (principalmente se ele for ganancioso e desonesto) e dá até a dica para se prevenir, mas o que interessa para os músicos em geral, e os contrabaixistas em nosso caso particular, é como evitar que o músico seja enganado na hora de adquirir seu instrumento ou quando necessitar restaurá-lo.
        Existem armadilhas muito sutis e que podem ser evitadas.
        Uma prática muito comum antigamente, na Europa e nos grandes centros era a seguinte: Um músico (ou lutier ou colecionador, o proprietário enfim) durante entrevista para a imprensa deixa escapar possuir um instrumento raro e que valeria X. É claro que X era um valor altíssimo.
        O fato dessa entrevista ser publicada em uma revista ou jornal dá a ela certa credibilidade mesmo que nunca especialista algum houvesse analisado ou avaliado o instrumento. A palavra escrita tem esse poder de ser tida como verdadeira apenas pelo fato de estar escrita e publicada.
        É claro que depois de alguns meses esse instrumento era colocado à venda por um valor até um pouco abaixo de X para demonstrar a boa vontade do esperto proprietário.

        Essa prática parece estar retornando:
        Há alguns anos uma revista nacional publicou uma matéria onde um músico diz possuir um contrabaixo que tem “cerca de 200 anos e que imaginamos (ele e seu "lutier") ser francês ou italiano”.

        Essa afirmação seria apenas engraçada e ridícula se não escondesse em si mesma, além da falta de ética, um real perigo de prejuízo para o próximo proprietário desse instrumento e talvez até a premeditação de quem a faz.

        É ridícula pois qualquer pessoa com um pouco de inteligência percebe que é impossível um “especialista”, que não sabe ao menos distinguir a origem de um instrumento entre francês ou italiano, afirmar que ele tem 200 anos.

        Como essa pessoa sabe a diferença entre um instrumento de 200 anos e um de 100 anos (ou 300 ou 50) se não tem a menor base no que afirma? 200 anos soa bonito? É isso?

        Mas o que ganha quem faz esse tipo de afirmação além de demonstrar total ignorância no assunto?

        Ganha credibilidade. É ai que está o perigo.

        Sendo essa pessoa um professor de música e tendo o professor uma ascendência e influência forte sobre seus alunos é muito fácil convencê-los de qualquer coisa e fazê-los acreditar em lendas.

        É bem possível que aconteça, como já tem acontecido tantas vezes, que dentro de alguns meses apareça por aqui um garoto com seu baixo recém comprado (a essa altura já com mais de 200 anos) "francêsouitaliano" (isso já é uma origem nobre e resolve tudo) pensando ser essa maravilha que a lenda conta e eu (ou algum outro lutier responsável) serei obrigado a falar a verdade a ele.

        É possível até que seja um instrumento tcheco com 30 ou 40 anos. Tudo é possível, afinal é apenas lenda! Pode ser até mesmo um excelente instrumento. Pode ser alemão, tudo “pode” ser. É só lenda.


        Algumas poucas pessoas até deixaram de freqüentar meu atelier por eu não compactuar com esse tipo de manobra e falar a verdade quando algum desavisado estava prestes a adquirir um baixo super valorizado mas eu não posso mentir para agradar alguém ou seu interesse. Eu vivo de confiança. Não fosse a confiança de meus clientes eu não teria já mais de 1910 instrumentos restaurados (até fevereiro de 2015) aqui em meu atelier e não atenderia aos principais contrabaixistas de todas as áreas.
        Houve até casos em que a pessoa me trouxe um contrabaixo querendo que eu o avaliasse muito acima do que valia realmente. Eu apontei todos os problemas do instrumento e dei o valor real que poderia ser pedido por ele.
        Passadas algumas semanas um rapaz apareceu no atelier com esse instrumento e me disse que o antigo proprietário afirmava que estava tudo certo e que eu já havia visto o instrumento. O que ele não falou foi que eu vi e falei que não valia aquela quantia e que tinha sérios problemas.
        Ele usou meu nome para convencer o rapaz, que tentou de todas as maneiras desfazer o negócio mas foi “enrolado” por muito tempo até conseguir. É claro que, depois de passar para frente por quantia absurda algo de tão pouco valor, ele não queria aceitar ter o baixo de volta e devolver o dinheiro.
        Muitos conseguem desfazer o negócio a tempo ou até ter o valor reduzido ao justo mas é preciso estar atento. Quando o valor pedido é o valor real ou está próximo do valor real é simples desfazer uma venda sem prejuízo de nenhuma das partes.


        É por isso que eu sempre ofereci aqui em meu atelier um serviço gratuito a todos que me procuram.
        Além de revender instrumentos usados aqui no atelier, qualquer contrabaixo que algum cliente encontrar para venda em qualquer lugar pode ser trazido aqui para uma avaliação gratuita antes de efetuar a compra. Assim, o futuro proprietário sabe exatamente o que está comprando, quanto vale, por quanto ele venderia no futuro, quanto ele deverá gastar para ter o instrumento rendendo ao máximo e etc. Caso o proprietário não permita que essa avaliação seja feita é por que tem coisa para esconder e é melhor nem ter mais contato com tal pessoa, muito menos comprar algo dela.

        Todos que agiram dessa maneira nos últimos 35 anos estão contentes com seu instrumento e seguros do que tem em mãos. Todo músico, qualquer que seja seu instrumento, que procurou por um lutier responsável antes de adquirir seu instrumento está seguro e feliz. São músicos que não acreditam em lendas e vivem na realidade. São pessoas que quando passarem a um instrumento melhor sabem o real valor de seu baixo e podem negociar sem sustos.

        Aqui nesse site você vai encontrar muitas dicas para os contrabaixistas na seção Dicas Úteis. Como comprar, o que observar, como transportar, como manter e guardar, etc.

        O aumento do número de instrumentos recém comprados que têm chegado aqui no atelier (acompanhados de seus donos frustrados) e que necessitam de restauração e ajustes imediatos apenas para que possam ser utilizados e o grande número de baixos que apresentam graves problemas mesmo tendo sido “restaurados” alguns dias antes de chegar aqui me fizeram refletir sobre esse assunto e deixar esse alerta para que os novatos, e os não tão novatos, não sejam mais enganados por esses espertalhões.

        Para comprar o instrumento que vai lhe acompanhar por muito anos é fundamental que ele seja avaliado por alguém que entenda do assunto, e quem entende desse assunto é o lutier. Mas não o que se diz lutier como tantos que existem hoje em dia. Falo do lutier formado, que teve um mestre, que teve formação, que tem nome respeitado no mercado, que estuda e dedica sua vida a isso.


        Procure em sua cidade pelos melhores lutiers, saiba com quem estudaram, saiba quem usa seus instrumentos, quem são seus clientes, vá conhecer os ateliers dos profissionais, converse com eles e confie nos que estão aptos para lhe ajudar. Se em sua cidade não existir alguém competente leve seu instrumento a um especialista em outro local mas não caia nas mãos de curiosos.


        Como é falado na seção de Dicas dentro do site, o professor de música não está qualificado para avaliar, restaurar ou assinar um parecer sobre um instrumento assim como não é o professor da auto-escola quem avalia ou opina sobre o carro que você quer comprar. Ao adquirir um carro você o mostra a um mecânico e não ao professor da auto-escola, essa é a lógica. Até o professor da auto-escola quando vai comprar um carro o leva ao mecânico, como o músico responsável e que dá valor a seu dinheiro faz indo consultar um lutier e como fazem os professores que tem ética e respeito, levando o instrumento para ser revendido num atelier respeitável e de confiança.
        É claro que ele, o professor, é uma figura importantíssima na formação do músico e é ele quem mantém viva a arte. Seu valor é inestimável e ele pode vender seu instrumento quando quiser e para quem quiser, mas é necessária muita ética nessa hora.
        Existe ainda os vários casos de professores e músicos que “trabalham” como “lutiers” nos instrumentos de seus alunos mesmo sem qualificação para isso “aprendendo” no instrumento dos outros e abusando da falta de ética e da falta de uma maior qualidade na cultura erudita no Brasil, mas isso já é outra história e vai muito longe esse papo. O importante é que você fique atento para não cair nas “lendas” que povoam essa área e não ser enganado quando necessitar comprar ou restaurar seu baixo.
        Toda pessoa que tem um instrumento musical ama esse instrumento. Mesmo sabendo que ele não é dos melhores ela, no fundo, sente que “aquele” instrumento é especial e isso é muito bonito. Esse sentimento merece respeito.
        Um abraço e olho vivo !!


                        Paulo Gomes

 

 

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