O golpe da
barra-harmônica

 

Cuidado, não deixe que substituam
as barras de seu instrumento sem necessidade.


    Há alguns anos apareceram em meu Atelier dois instrumentos que passaram pelas mesmas mãos inexperientes e sem conhecimento da lutheria

    No primeiro deles eu observei que havia sido realizado um "trabalho" de péssima qualidade e que toda a parte de contato entre o tampo e as faixas estava completamente danificada, demonstrando que havia sido aberto por algum incompetente.

    Observando a espessura ridícula dos cavaletes, o péssimo assentamento e os rabiscos feitos com lápis no tampo, notei que os pobres contrabaixos haviam passado pelas mãos de curiosos.

    Ao abrir o contrabaixo vi que quem realizou esse crime nem se deu ao trabalho de retirar a cola antiga, deixando uma enorme quantidade de cola nova em excesso junto à antiga. Toda a borda do tampo estava danificada e até cortada em um ponto de um lado ao outro num visível corte de espátula feito por alguém que não sabe como se abre um instrumento com responsabilidade. Havia ainda marcas no verniz provocadas por grampos mau colocados ou muito apertados e que comprometeram para sempre essa região.

    Mas o pior ainda estava por vir:

    Num instrumento razoavelmente antigo estava "instalada" uma barra harmônica branquinha, de madeira ainda verde e úmida e de péssima qualidade com os veios completamente irregulares e fora da inclinação correta.

    Observando esse absurdo com mais atenção notei que haviam enormes frestas entre a barra e o tampo onde deveria haver um assentamento perfeito. Ficou claro que um "curioso" havia trocado a barra harmônica original do contrabaixo e cometido aquele absurdo.

    E não é só isso. TODAS as barras do fundo (plano) haviam sido trocadas por outras da mesma baixa qualidade da barra harmônica.

    Esse infeliz ainda quebrou o fundo na região da dobra superior na hora de trocar a barra (um corte de cerca de 20 cm) e, para tampar o buraco feito quando a madeira se partiu, colou um filete de outro tipo de madeira de forma rústica e mal feita, e depois "retocou " o verniz com um acabamento horroroso. A noceta também havia sido destruída por esse incompetente.

    Assim que me deparei com esse quadro chamei o dono do instrumento e mostrei a ele as conseqüências do péssimo trabalho realizado.

    O rapaz me disse que havia sido iludido pois eu demonstrei a ele que não havia a menor necessidade de se trocar aquela barra harmônica e muito menos as barras do fundo, e que o tal "curioso" havia falado para ele que o som do instrumento melhoraria muito se ele trocasse TODAS as barras do instrumento. Isso é ridículo.

    Eu já conhecia esse baixo e uma breve observação dele agora já demonstra que esse instrumento não necessitava barras novas. Esse "trabalho" foi um engodo. Não só por realizar trabalhos desnecessários apenas para ganhar dinheiro, mas, principalmente, por danificar e muito o instrumento ao realizar essa verdadeira farsa.

    Num fundo chato existe a tendência de formar uma barriga para dentro do instrumento, por isso quando se colocam as barras essas devem ser ligeiramente abauladas para fora de maneira que compense a tendência natural de abaular para dentro. Com o passar dos anos e, se o fundo está muito abaulado para dentro, pode-se trocar essas barras voltando-se antes o fundo à posição original. No caso desse instrumento com menos de um mês depois de trocadas as barras o fundo estava completamente empenado para dentro. As madeiras usadas nessas barras eram de qualidade e idade muito inferiores às originais.

    O caso do tampo foi pior, se é que é possível ser pior.

    A barra harmônica é uma peça muito importante principalmente no contrabaixo. Ela é a responsável pela distribuição dos graves pelo tampo (em inglês se chama Bass Bar). E isso é muito importante num baixo.

    Normalmente a barra, quando bem feita, demora um certo tempo para que o instrumento volte a ter o mesmo tipo de sonoridade e flexibilidade anterior. É necessário que o instrumento seja tocado durante muito tempo para que a nova barra seja "amaciada", digamos assim.

    Quando o tampo começa a ceder e "afundar" para dentro no lado direito é por que a barra já está "cansada". Isso ocorre com o passar dos anos. Só que esse tampo estava em perfeitas condições e pronto para ser tocado ainda por mais uns 5 ou 6 anos sendo essa a sua melhor fase.

    Justamente no período onde a barra estava dando o máximo de seu trabalho para a sonoridade do contrabaixo apareceu um ganancioso que, por dinheiro fácil, retirou-a colocando uma nova muito mal feita e de material de 5ª categoria que deixou o contrabaixo com um som muito aquém do anterior.


    O mais interessante foi notar que esse infeliz destruidor de instrumentos assinou com uma caneta seu nome dentro do contrabaixo!!

    Meu mestre Enzo Bertelli sempre falava que aquele que escreve dentro de um instrumento "é como aquele que escreve na porta do banheiro e, quase sempre, faz no instrumento o mesmo que o outro faz no banheiro".

    Não vou citar o nome dele aqui pois não me interessa divulgar gente desonesta e aproveitadora e já existe outro "especialista" fazendo a mesma coisa (trocando a barra sem a menor necessidade) só que colando uma enorme etiqueta de plástico dentro dos instrumentos que maltrata (pergunte à Gê, se você a conhecer, sobre esse novo "lutier" que, alias, é o mesmo do baixo "francesouitaliano" da página sobre ética). Ao levar seu instrumento para restauração em algum lutier, não se esqueça de perguntar se ele gosta de rabiscar ou colar coisas dentro do contrabaixo e não deixe que ninguém faça isso.

    Me sinto obrigado a alertar os contrabaixistas. Infelizmente no Brasil, ao contrário dos centros mais desenvolvidos, não existe um controle dessa profissão, com sindicatos, leis, etc. Aqui basta ter um martelo e dizer que é lutier e pronto, o sujeito começa a estragar os instrumentos dos amigos e dos coitados que os amigos indicam às vezes na melhor das boas intenções.

    Caso você tenha tido alguma indicação de alguém que você desconfie que faz esse tipo de "serviço" me ligue (ou fale com o Rubinho se você o conhecer) que eu, em particular, avisarei se se trata ou não de elemento nocivo aos nossos queridos instrumentos.


    A barra harmônica é uma peça muito importante e não deve ser trocada à toa, assim como o verniz.

    Caso alguém não habilitado (alguém que não é lutier, que não teve um mestre, que resolveu de repente que era lutier) se ofereça para trocá-la leve antes seu instrumento a um lutier de verdade apenas para que ele lhe oriente sobre a necessidade ou não de se trocar essa peça.

    É obrigação do lutier orientar e falar a verdade para seus clientes ou para quem o procura em busca de orientação técnica, profissional e responsável.


   Procure em sua cidade pelos melhores lutiers, saiba com quem estudaram, saiba quem usa seus instrumentos, quem são seus clientes, vá conhecer os ateliers dos profissionais, converse com eles e confie nos que estão aptos para lhe ajudar.

    Se em sua cidade não existir alguém competente leve seu instrumento a um especialista em outro local mas não caia nas mãos de curiosos.

    Um abraço e olho vivo.
 

                        Paulo Gomes

 

 

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