Uma peça inútil
e mal projetada
danificando seriamente
os Contrabaixos


Cuidado, não deixe que curiosos o enganem
e cobrem para danificar seu instrumento.

Você já viu uma coisa parecida com esta??
Espero que não tenha sido em seu instrumento.


Para começa vamos falar um pouco sobre esse tipo de dispositivo, sua função, quando é realmente necessário e como deveria ser executada para evitar os absurdos aqui mostrados
.

Trata-se de um modo de aliviar (muito pouco) a tensão que as cordas exercem no tampo do instrumento mas parece que alguns curiosos estão tentando convencer os músicos de que isso alivia a tensão das cordas tornando o instrumento mais macio e ganhando dinheiro para destruir os instrumentos dos desavisados. Isso não "ecxiste" (como diria o Pe Quevedo).

A variação de ângulo no cavalete é mínima e a tensão das cordas não sofre mudança alguma pois o comprimento da corda e a nota que ela vibra quando tocada não se alteram.

Vou dar um exemplo bem prático do que ocorre usando um baixolão que modifiquei como exemplo:

O ângulo original

O ângulo novo

Nas fotos acima se pode ver como era o ângulo das cordas antes e depois que eu modificasse o instrumento.

Vamos analizar as razões que me levaram a modificar o sistema.

O tampo, como todo tampo de violão e principalmente de baixolão com cavalete estilo violão, estava empenando muito devido à tensão gerada na ponte fazendo a parte inferior do mesmo abaular para fora e começando descolar a ponte.

Isso ocorre porque a ponta da corda com a bolinha de metal puxa o tampo para cima e o rastilho (a pestaninha onde a corda se apoia) força o tampo para baixo e entre eles há uma distância de cerca de 3cm como se vê abaixo.

A forças em ação antes da mudança

Essa é a única razão aceitável para se modificar o ângulo das cordas na ponte.

A tensão das cordas, ao tocar, não modificou em nada.
A única coisa que melhorou foi a tensão desnecessária no tampo que desapareceu.

O comprimento das cordas permanece o mesmo e a afinação também é a mesma portanto a tensão das cordas em kilos permanece a mesma e, a não ser por algum fator psicológico, não se nota nenhuma diferença ao executar o instrumento.


Agora que vimos a função de uma peça deste tipo vamos analizar essa "maravilha" da engenharia que apareceu em meu Atelier.

Trata-se de uma tentativa muito infeliz de se copiar uma pestana inferior elevada mas que, do modo como foi mal projetada e executada, apenas danifica o tampo do instrumento de forma permanente.

Numa primeira olhada já vemos que, além de amassar o tampo com a tensão de todas as cordas,
existe um parafuso que perfura as faixas inferiores e o taco e que mantém tudo no lugar.

Não preciso falar aqui sobre parafusos colocados em instrumentos e o total absurdo que isso significa.

Ou seja: você paga, tem o tampo amassado por um dispositivo inútil e ainda tem seu instrumento perfurado por um parafuso enorme.

O tampo já afundado em mais de 4 mm pronto para rachar

O tampo (a parte mais nobre e sensível do instrumento) já afundado cerca de 4mm numa região com espessura total de 7mm!! Essa é uma região sensível e já caminha para rachaduras laterais devidas à pressão desnecessária e imensa na madeira.

Um lutier formado, mesmo que ainda inexperiente, jamais deixaria de notar que uma coisa como esse vai danificar o instrumento e tentaria um desenho melhor.

Veja mais:

Um PARAFUSO !?!??!

A "maravilha" com seu "singelo" parafuzinho.
Ao fundo se vê o amassado no tampo e a pestana já descolada pela força mal aplicada.

As faixas também afundaram

As faixas também afundaram, a pestana descolou mas o que é mais
"lindo" é o "furinho" delicado feito no instrumento.

O que é isso?? Isso nem passa perto do trabalho de um lutier de verdade.

O espigão não resistiu ao cabo

O espigão não resistiu a tensão no sentido errado causada por projeto mal feito.

Repare na corda Mi

Para coroar o "trabalho" maravilhoso de estragar o tampo, as faixas inferiores,
o taco inferior, o espigão e a pestana inferior do Contrabaixo de um músico
com menos conhecimento que o seu próprio, o "curioso" "trabalhou" assim a pestana superior.

O que você acha que vai acontecer com a corda Mi,
a mais grossa de todas, com uma curva como essa na pestana?

Se existem todos esse fatores negativos, qual é a razão para que exista esse tipo de dispositivo e que eu mesmo já tenha instalado alguns (muito poucos para mais de 30 anos de trabalho)?

Essas peças surgiram quando passaram a transformar antigos instrumentos feitos para 3 cordas em 4 ou até 5 cordas e havia a necessidade de aliviar a tensão no TAMPO do Contrabaixo.

É claro que nunca um lutier de verdade fez uma coisa medonha como essa.
Estamos falando de peças feitas corretamente e que preservam a integridade do instrumento e foram instaladas apenas nos casos em que realmente foi constatada a pressão maior no tampo por acréscimo de uma corda por exemplo.

Instrumentos muito antigos, com mais de 200 anos que tem a madeira já muito fragilizada, ressecada e encolhida também podem se beneficiar desse tipo de artifício.

As cordas quase sem ângulo

Se fosse verdade que a tensão que o músico sente ao tocar se modifica,
meu baixolão estaria praticamente sem tensão alguma e com as cordas trastejando
pois, como se vê, as cordas estão quase sem ângulo na ponte.

Isso, é claro, não aconteceu. A "tocabilidade" do instrumento permaneceu a mesma. O que se nota visivelmente é a melhora no empenado que já começava no tampo e hoje desapareceu.

O ângulo no cavalete

Num instrumento com medidas corretas o ângulo da corda no cavalete é de cerca de 148°. Com a elevação passaria 152°. Estes 4° em nada mudam a tensão que se sente nas cordas ao tocar.
Como já falei aqui o que diminui e muito pouco é a pressão do cavalete contra o tampo.

Por modificar a pressão que o tampo sofre, a sonoridade também é afetada.
Nem sempre para melhor. Eu já retirei muitas destas peças que estavam piorando o instrumento
com excelentes resultados sonoros.

Também já instalei alguns em baixos que realmente necessitavam alivio no tampo por diversas razões. Sempre peças projetadas corretamente e que podem ser retiradas em segundos voltando o instrumento à sua condição original.

É claro que existe um fator psicológico que torna difícil avaliar corretamente o que acontece quando tocamos agora e o que sentimos depois de 1 hora ou mais. Isso é natural e deve ser levado em conta.

Instalar uma peça como essa já é enganar o músico e não deveria ser feito jamais mas, cobrar para danificar o instrumento é algo que só alguém mal intencionado que consegue iludir as pessoas é capaz.

Não se deixe explorar por curiosos que visam apenas o lucro e não se dão ao trabalho nem mesmo de aprender a profissão ou de observar o resultado de seus "feitos".


Um instrumento é parte de seu dono, por mais simples que seja ele é o instrumento para quem nele toca. Tente respeitar isso e não deixe que curiosos destruam o que você tanto gosta.

Caso alguém não habilitado (alguém que não é lutier, que não teve um mestre, que resolveu de repente que era lutier) se ofereça para instalar dispositivos em seu instrumento ou algo assim mirabolante, leve seu baixo a um luthier de verdade apenas para que ele lhe oriente sobre a necessidade ou não de se realizar tal serviço e as opções de procedimento corretas.

É obrigação do luthier orientar e falar a verdade para seus clientes ou para quem o procura em busca de orientação técnica, profissional e responsável.


Procure em sua cidade pelos melhores luthiers, saiba com quem estudaram e por quanto tempo, saiba quem usa seus instrumentos, quem são seus clientes, vá conhecer os ateliers dos profissionais, converse com eles e confie nos que estão aptos para lhe ajudar.
Se em sua cidade não existir alguém competente leve seu instrumento a um especialista em outro local mas não caia nas mãos de curiosos.

    Um abraço e olho vivo
 

                        Paulo Gomes

 

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