Porque não se deve
trocar o verniz original

 

Cuidado, não deixe que curiosos o enganem
e tentem trocar o verniz de seu instrumento.


   Você conheceu o contrabaixo do Guedes? Quem conheceu na certa vai ficar muito chateado em saber o que foi feito dele. E quem não conheceu vai saber o tipo de conto do vigário que anda sendo aplicado ainda hoje no Brasil e poderá evitar que o mesmo ocorra com seu instrumento.

    Esse baixo era um dos mais bonito que já passaram por meu Atelier (e já são mais de 2000 instrumentos diferentes). Um contrabaixo de autor, muito provavelmente italiano [por suas formas, filete e verniz (o original é claro)].

É muito difícil precisar com exatidão a origem do instrumento pois o mesmo não tem etiqueta (na certa retirada por algum incompetente) e já não conta com detalhes originais importantes. Somente uma análise com aparelhos de raio-x, infra vermelhos e outros, e a comparação com a ajuda de livros feita por expert em avaliação é que podem realizar esse trabalho. O que custa muito caro, normalmente uma boa porcentagem do valor do mesmo.



    Nas fotos abaixo se pode notar que ele possui a parte superior curva, como são o violino, a viola e o cello. Essa é uma característica marcante de contrabaixos italianos antigos, mas o contrabaixo nunca foi padronizado como os outros instrumentos da família dos arcos e, por isso, sempre houve lutiers na França usando modelos italianos, em Viena usando modelos franceses e outros tipos de misturas de estilos e técnicas entre os vários países da Europa (o que, aliás, foi muito bom para o desenvolvimento do instrumento). Hoje o contrabaixo é tocado de maneira muito mais abrangente que naquela época, exigindo muito mais conforto e portanto esse modelo não é mais utilizado. Mas como instrumento era uma maravilha digna de um grande artesão.

    Além de ter sido construído com madeiras muito bonitas e por artesão extremamente competente o que mais chamava a atenção era o maravilhoso verniz à óleo, de cor gelo amarelada que realçava a madeira, principalmente o acero (maple) muito marezzato (flamed) e dava um magnífico efeito de profundidade. Algo como não se vê há muito tempo.



    Pois aconteceu com esse contrabaixo a pior coisa que pode acontecer a um instrumento: Ele caiu nas mãos de um curioso incompetente que, além de trocar a barra harmônica (sem a menor necessidade e apenas para ganhar dinheiro fácil) raspou o verniz original e o substituiu por algo que nem pode ser chamado de verniz.
    Quanto à barra harmônica e demais danos são os mesmos que você pode encontrar no artigo intitulado "O golpe da barra harmônica" e também "A falta de ética na venda de um contrabaixo" nesse site, pois o dano é o mesmo embora os "autores" dessas "proezas" sejam varios.

    Depois de raspar o verniz original (o que desvalorizou completamente o instrumento tornando sua negociação na Europa ou qualquer grande centro cultural praticamente impossível) esse mal informado "remendão" tingiu a madeira com um produto oleoso à base de petróleo, fazendo com que a madeira absorvesse tal produto, entupindo seus poros e acabando de vez com o efeito tradicional do acero que é a marezzatura. Quando feito de maneira correta o verniz, além de realçar a marezzatura ainda dá o efeito de profundidade na madeira. Ao se movimentar a peça ou mudar a posição do observador, as ondas claras ficam escuras e as escuras ficam claras dando um efeito tridimensional e de profundidade muito bonito.
    Ao tingir a madeira com qualquer produto o que acontece é que os poros ficam entupidos e a ondulação natural da madeira faz com que se deposite mais produto onde a fibra está em pé e menos onde ela está deitada. Isso faz com que, mesmo mudando-se de posição o observador ou a peça, as ondulações permaneçam com a mesma cor como se fossem pintadas (como uma zebra, por exemplo), perdendo totalmente o efeito de profundidade que caracteriza essa madeira e encanta tanto músicos como artesãos há séculos.

    É claro que se essa pessoa tivesse ao menos lido algum livro ou até mesmo um simples artigo sobre luteria, saberia que o que fez é, na realidade, um crime contra o instrumento. Se tal curioso tivesse estudado com algum mestre-lutier com toda certeza não faria esse ato tão daninho a uma peça de tanto valor artístico e histórico mesmo que o proprietário do instrumento pedisse que o verniz fosse trocado (pois o músico não tem obrigação de saber esse tipo de coisa). Eu mesmo já me recusei a fazer tal estrago em varios instrumentos argumentando com os proprietários sobre o absurdo de se trocar um verniz original, já oxidado pelo passar dos anos e feito pelo autor original e sempre obtive uma resposta favorável depois de explicar mais detalhadamente qual a função do verniz.



    Como resultado final temos agora um contrabaixo inteiramente riscado de lixa com as marcas dessa raspagem aparentes, os poros completamente entupidos (o que prejudicou, e muito, a sonoridade), o efeito de profundidade perdido para sempre e uma camada de goma laca pura por cima dessa "lambança" dando um brilho típico dos instrumentos de fábrica da pior qualidade.
    Esse produto penetrou por varios milímetros na madeira e nada mais pode ser feito para tentar recuperá-lo. É uma pena, mas uma peça centenária e de alto valor artístico foi reduzida a um móvel mal acabado. É quase certo que isso foi feito pois ao colar algumas rachaduras não houve o cuidado de deixar os dois lados nivelados e para não ficar um "degrau" aparente foi lixada a parte mais alta o que, além de ser um absurdo, danificou o verniz e tornou aparente a mal executada restauração. Normalmente instrumentos pretos ou muito escuros são assim para encobrir os defeitos da restauração incompetente.



    Observe as fotos abaixo e tente imaginar esse instrumento com um verniz à óleo, côr gelo amarelado, já oxidado por mais de cem anos, feito pelo autor original do instrumento e sem todas essas manchas escuras. Assim como ficou não se vê nem os veios da bela madeira utilizada em sua construção.

 

Agora observe essa foto de Glen Moore (do grupo Oregon) com seu instrumento. Trata-se de um Klotz de 1715.
Como se pode notar, o verniz está bem danificado e oxidado pela ação do tempo.

    É um instrumento contruído num período em que Johann Sebastian Bach (1685-1750) tinha 30 anos e compunha suas maravilhas.
    Por sorte esse contrabaixo (que tem uma cabeça de dragão esculpida na voluta) nunca passou por mãos inexperientes e gananciosas e tem o seu verniz original preservado.

    Esse instrumento já foi restaurado por Paul Toeneges e também por Paul Schubeck e, uma vez que esses eram lutiers de verdade, seu verniz original ainda está preservado.

    Tente agora imaginar esse lindo contrabaixo cheio de marcas de lixa, com uma camada de "tinta" marrom escura, quase preto, repleto de manchas e com um brilho de goma laca como os piores instrumentos de fábrica.
    É difícil imaginar que alguém tente enganar um músico como Glen Moore, mas se esse instrumento algum dia cair nas mãos desses incompetentes, que tentam aprender lutheria estragando os instrumentos dos outros, não é difícil imaginar que tal "curioso" vai tentar logo de início raspar esse verniz e colocar algo que ele considere como um verniz "melhor" (cobrando para realizar esse atentado).

    Alguém sem a nenhuma noção de lutheria pode até pensar que é mais bonito um verniz novinho, brilhante, mas quem tem um pouco de conhecimento na área sabe que o dano causado à sonoridade e ao valor do instrumento serão irreversíveis.


    Para finalizar o estrago, observe como foi fechado o instrumento depois de ter sido aberto para a troca da barra harmônica (sem a menor necessidade) a qual já está cedendo apenas alguns meses após a troca. (Leia o artigo "O golpe da barra harmônica" nesse site).
    A seta verde mostra o bordo correto do instrumento (cerca de 3,5 mm), que deveria ocorrer em toda a sua extensão e que é como está o bordo do fundo (que teve a sorte de não ter sido tocado). A seta amarela mostra como ficaram algumas partes do baixo após ser fechado por alguém sem competência para isso. Observe a distância entre o bordo e a faixa (cerca de 18 mm). É claro que, se em alguns pontos existe tal diferença para fora, em outros falta bordo, ficando a faixa aparente e saltando para fora do bordo do instrumento.

 

É claro que esse "destruidor" de instrumentos não perdeu a oportunidade de colar dentro do baixo uma etiqueta com seu nome, endereço, etc, dizendo-se especializado em violinos, violas, violoncelos, contrabaixos, arcos...
    O verniz é uma parte muito importante no instrumento e não deve ser trocado à toa assim como a barra harmônica.
    Caso alguém não habilitado (alguém que não é lutier, que não teve um mestre, que resolveu de repente que era lutier) se ofereça para trocá-lo leve antes seu instrumento a um lutier de verdade apenas para que ele lhe oriente sobre a necessidade ou não de se realizar tal serviço.

    É obrigação do lutier orientar e falar a verdade para seus clientes ou para quem o procura em busca de orientação técnica, profissional e responsável.

   Procure em sua cidade pelos melhores lutiers, saiba com quem estudaram e por quanto tempo, saiba quem usa seus instrumentos, quem são seus clientes, vá conhecer os ateliers dos profissionais, converse com eles e confie nos que estão aptos para lhe ajudar.
    Se em sua cidade não existir alguém competente leve seu instrumento a um especialista em outro local mas não caia nas mãos de curiosos.


    Um abraço e olho vivo

 

                        Paulo Gomes

 

 

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