Violino serpente 1993

 

Esse violino foi construído sob encomenda para meu amigo Atilio Marsiglia.
Depois de terminado um inesto - trabalho onde se troca o braço do instrumento mantendo a voluta original - para o contrabaixo Clodot de Luiz Chaves, o material restante foi aproveitado para a construção desse violino.

O fundo, o braço e as faixas são da mesma peça de madeira: Acero (maple).

O tampo é de Abeto alemão de primeira qualidade e os acessórios são em Ébano.
Esse instrumento só foi construído por muita insistência de Atílio que não resistiu ver aquele pedaço maravilhoso de Acero no Atelier.

Além disso eu já tinha feito alguns esboços de um instrumento "serpente" e coloquei como condição para que eu voltasse a fazer um violino (fiz 4 enquanto aprendia com Bertelli), pois um violino "padrão" como os outros não me interessava fazer.

 

Na voluta foi feita uma cabeça de naja com expressão de atenção e preparando o bote.

Os F's (Aqueles cortes que todo instrumento de arco tem no tampo chama-se F) completam o estilo do instrumento pois foram substituídos por duas serpentes erguidas e encarando-se.

Construir um instrumento diferente daquele no qual se é especialista é um desafio e um aprendizado sem igual.
A execução do instrumento é de suma importância, e somente os anos aprendendo apenas a trabalhar com violinos com meu mestre Bertelli é que permitiram que eu realizasse esse trabalho.

Esse é o único violino construído em meu Atelier e não pretendo construir outro - o que aumenta ainda mais o seu valor.

Para fazer a cabeça pesquisei vários tipos de cobras e achei na naja a forma ideal. Ela tem aquela aba em sua cabeça, e isso tornou as linhas ao mesmo tempo estilizadas e realistas.

A expressão e a postura da serpente dão altivez ao instrumento e a beleza do material enobrece suas linhas.
A tentação de colocar detalhes demais sempre fica presente e é necessário deixar apenas alguns que diferenciem o instrumento sem comprometer em nada sua sonoridade e beleza.

 

Os F's foram primeiramente desenhados segundo o modelo de Stradivarius de 1689 e depois apenas modificados em suas pontas para tranformarem-se em serpentes.
Isso faz com que haja o mesmo efeito pretendido no corte de um F normal.

À primeira vista, o instrumento passa por um modelo padrão, mas assim que se fixa o olhar já se notam as formas diferentes.

Esse violino foi construído nos intervalos entre um contrabaixo e outro e por isso demorou muito tempo para ser feito.

Hoje é um enorme prazer escutar os discos e ver os trabalhos que o Atílio vem realizando com ele durante esses anos.

Houve noites em São Paulo em que ele tocava junto com meu saudoso amigo Peter Wooley, um contrabaixista para quem eu construi um instrumento, e me dá muito orgulho saber que os responsáveis por toda aquela música foram construídos aqui em meu atelier.

 

 

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